{"id":51,"date":"2024-12-12T19:20:49","date_gmt":"2024-12-12T22:20:49","guid":{"rendered":"https:\/\/psicolis.com.br\/?p=51"},"modified":"2024-12-13T13:32:04","modified_gmt":"2024-12-13T16:32:04","slug":"cada-um-tem-aquilo-que-merece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psicolis.com.br\/index.php\/2024\/12\/12\/cada-um-tem-aquilo-que-merece\/","title":{"rendered":"Cada um tem aquilo que merece?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Um Relato de Uma Estagiane.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Num dado momento do meu processo terap\u00eautico, precisei organizar em ordem cronol\u00f3gica minhas lembran\u00e7as de inf\u00e2ncia at\u00e9 adolesc\u00eancia. Assim, me dei conta de como acabei condicionada a observar a express\u00e3o e comportamentos das pessoas gra\u00e7as a minha m\u00e3e, pois foi dessa forma que pude &#8220;conhec\u00ea-la&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">H\u00e1 quase 30 anos, minha m\u00e3e recebeu o diagn\u00f3stico de um transtorno psic\u00f3tico. N\u00e3o vou me aprofundar no psicologu\u00eas da coisa toda. Prefiro, aqui, compartilhar minha experi\u00eancia pessoal. E digo a voc\u00eas que olha, foram momentos delicados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Minhas primeiras mem\u00f3rias com minha m\u00e3e foram do cuidado dela comigo, mas de uma maneira distante no que se refere a qualquer tipo de rela\u00e7\u00e3o, que hoje entendo como saud\u00e1vel, sendo constru\u00edda. Afetuosa, por\u00e9m bastante introvertida, quieta, sem que eu pudesse conhec\u00ea-la em sua completude dividindo ideias, pensamentos, jogando conversa fora com algu\u00e9m. Eu mal sabia qual era sua comida preferida, o que mais gostava de fazer, coisas assim. Eu s\u00f3 via uma mulher reservada em seus pensamentos, que sorria pouco e que cantarolava muito, algumas vezes acompanhada de um viol\u00e3o. Vez ou outra vinha at\u00e9 meu quarto para tocar e cantar em paz. Tirei muito proveito disso, apesar das m\u00fasicas sempre melanc\u00f3licas (que talvez j\u00e1 pudessem significar muita coisa). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Me lembro de uma das poucas conversas que tivemos h\u00e1 uns 3 anos. Perguntei como tinha sido os primeiros meses como m\u00e3e com a minha chegada, j\u00e1 que, naquele momento, eu estava mergulhada na maternidade e queria saber um pouco da sua experi\u00eancia. Ela s\u00f3 dividiu que acreditava ter tido depress\u00e3o, pois se via muito sozinha vivendo algo muito intenso e se entristecia com a solid\u00e3o. Mas que me amava profundamente e adorava minha companhia, ainda que eu fosse um beb\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Aos meus 7 anos, veio meu irm\u00e3o. E por volta de 1 ano e meio depois, as primeiras crises psic\u00f3ticas da minha m\u00e3e. Eu era uma crian\u00e7a sem entender nada do que estava acontecendo. S\u00f3 sentia medo. Mas, mesmo vendo de perto suas crises, nunca tive medo da minha m\u00e3e. Eu temia era pela seguran\u00e7a e bem-estar dela. E me incomodava as pessoas a tratando como uma criatura estranha. Por mais que eu n\u00e3o a conhecesse tanto quanto gostaria, eu a observava e algo me dizia que ela s\u00f3 estava explodindo por suportar tanta coisa calada. Obviamente, eu n\u00e3o tinha essa consci\u00eancia na \u00e9poca. S\u00f3 sentia que olharem para ela como uma pessoa estranha e louca era injusto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">O tratamento (question\u00e1vel) veio, a separa\u00e7\u00e3o dela e do meu pai tamb\u00e9m veio, o tempo passou e fui crescendo cada vez mais distante de uma rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filha. Conviv\u00edamos, j\u00e1 que ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o continuei morando com ela. T\u00ednhamos afeto uma pela outra e declara\u00e7\u00f5es de amor. A rela\u00e7\u00e3o era essa. Mas minha m\u00e3e permanecia fechada em seus pensamentos, sem compartilhar quase nada sobre si comigo. Consequentemente, nem eu com ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Me tornei adolescente, depois adulta. A vida foi acontecendo. E agora inicio meus primeiros passos na cl\u00ednica como psic\u00f3loga. E esta introdu\u00e7\u00e3o toda \u00e9 para, de certa forma, refletir sobre o que ouvi de alguns professores durante a gradua\u00e7\u00e3o: cada um tem os primeiros pacientes que merece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Durante todos esses anos acad\u00eamicos, eu tive uma certeza (sabia de nada) na vida: eu me esquivaria de qualquer paciente psic\u00f3tico, dado todo meu hist\u00f3rico familiar e que, certamente, n\u00e3o conseguiria lidar com hist\u00f3rias parecidas com a da minha m\u00e3e. Ledo engano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Pausa para curiosidade in\u00fatil: sempre sonhei em escrever &#8220;ledo engano&#8221;. Falar ent\u00e3o&#8230; Uma del\u00edcia! Risos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Voltando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Dentre os pacientes que atendi esse ano, tive um espec\u00edfico que vou, aqui, chamar de Fulano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Fulano se apresentou nas primeiras sess\u00f5es com discurso desconexo, uma certa ansiedade em expressar tudo que podia e relatando que, em sua trajet\u00f3ria, houve algumas crises psic\u00f3ticas. Quando estava em crise, gostava de andar sem rumo, se isolava socialmente, manifestava uma explos\u00e3o de f\u00faria com pessoas pr\u00f3ximas, principalmente em rela\u00e7\u00f5es afetivas carregadas de inseguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Pausa para eu falar comigo mesma: &#8211; Te lembra alguma coisa, Bruna?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Voltando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Em meio aos seus relatos, ele sempre trazia met\u00e1foras existenciais, discursos filos\u00f3ficos e forte liga\u00e7\u00e3o com arte em geral; desenhos, literatura, capoeira, m\u00fasica. E foi aqui que fui tentando tecer v\u00ednculo com ele e onde pude enxergar, atrav\u00e9s dos olhos dele, um pouco de como ele pensava o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Foi uma via de m\u00e3o dupla. Atrav\u00e9s de um paciente psic\u00f3tico, que jurava que fosse evitar na vida profissional, consegui abra\u00e7ar um desafio que me instigou muito mais. Muito do que vinha dali me era familiar. Nada daquilo me assustava enquanto estagiane novata e perdida. Bem no sentido contr\u00e1rio, cada detalhe do seu relato o humanizava cada vez mais dentro da atmosfera patologizante que tem sido o trato da sa\u00fade mental hoje em dia. O v\u00ednculo terap\u00eautico foi criando forma tamb\u00e9m atrav\u00e9s do seu engajamento e, assim, sendo poss\u00edvel encaixar algumas pe\u00e7as, destacando suas potencialidades, fortalecendo autonomia e autenticidade, juntamente com o acompanhamento psiqui\u00e1trico necess\u00e1rio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Por fim, com muita terapia pessoal, fui tamb\u00e9m encaixando pe\u00e7as para mim. Ser\u00e1 que esse percurso teria sido bem mais \u00e1rduo se eu n\u00e3o tivesse vivido aqueles momentos com a minha m\u00e3e? Sem querer romantizar sofrimento aqui, porque s\u00f3 eu sei o que vi e senti quando nem idade pra isso eu tinha. Ali\u00e1s, hoje n\u00e3o resumo essa hist\u00f3ria com minha m\u00e3e como boa ou ruim. Nos amamos e \u00e9 isso. Entendo que foi a forma como a vida se apresentou. E sobre o Fulano, n\u00e3o entro muito nessa de experi\u00eancia que mereci. Mas talvez tenha tido a experi\u00eancia que eu precisava para compreens\u00e3o de uma psicologia que vai al\u00e9m do que meus olhos de aprendiz enxerga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Obrigada, Fulano que nunca vai ler isso aqui. Te desejo boas f\u00e9rias e boas reflex\u00f5es. Ano que vem tem mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um Relato de Uma Estagiane. Num dado momento do meu processo terap\u00eautico, precisei organizar em ordem cronol\u00f3gica minhas lembran\u00e7as de inf\u00e2ncia at\u00e9 adolesc\u00eancia. 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