Um Relato de Uma Estagiane.
Num dado momento do meu processo terapêutico, precisei organizar em ordem cronológica minhas lembranças de infância até adolescência. Assim, me dei conta de como acabei condicionada a observar a expressão e comportamentos das pessoas graças a minha mãe, pois foi dessa forma que pude “conhecê-la”.
Há quase 30 anos, minha mãe recebeu o diagnóstico de um transtorno psicótico. Não vou me aprofundar no psicologuês da coisa toda. Prefiro, aqui, compartilhar minha experiência pessoal. E digo a vocês que olha, foram momentos delicados.
Minhas primeiras memórias com minha mãe foram do cuidado dela comigo, mas de uma maneira distante no que se refere a qualquer tipo de relação, que hoje entendo como saudável, sendo construída. Afetuosa, porém bastante introvertida, quieta, sem que eu pudesse conhecê-la em sua completude dividindo ideias, pensamentos, jogando conversa fora com alguém. Eu mal sabia qual era sua comida preferida, o que mais gostava de fazer, coisas assim. Eu só via uma mulher reservada em seus pensamentos, que sorria pouco e que cantarolava muito, algumas vezes acompanhada de um violão. Vez ou outra vinha até meu quarto para tocar e cantar em paz. Tirei muito proveito disso, apesar das músicas sempre melancólicas (que talvez já pudessem significar muita coisa).
Me lembro de uma das poucas conversas que tivemos há uns 3 anos. Perguntei como tinha sido os primeiros meses como mãe com a minha chegada, já que, naquele momento, eu estava mergulhada na maternidade e queria saber um pouco da sua experiência. Ela só dividiu que acreditava ter tido depressão, pois se via muito sozinha vivendo algo muito intenso e se entristecia com a solidão. Mas que me amava profundamente e adorava minha companhia, ainda que eu fosse um bebê.
Aos meus 7 anos, veio meu irmão. E por volta de 1 ano e meio depois, as primeiras crises psicóticas da minha mãe. Eu era uma criança sem entender nada do que estava acontecendo. Só sentia medo. Mas, mesmo vendo de perto suas crises, nunca tive medo da minha mãe. Eu temia era pela segurança e bem-estar dela. E me incomodava as pessoas a tratando como uma criatura estranha. Por mais que eu não a conhecesse tanto quanto gostaria, eu a observava e algo me dizia que ela só estava explodindo por suportar tanta coisa calada. Obviamente, eu não tinha essa consciência na época. Só sentia que olharem para ela como uma pessoa estranha e louca era injusto.
O tratamento (questionável) veio, a separação dela e do meu pai também veio, o tempo passou e fui crescendo cada vez mais distante de uma relação mãe e filha. Convivíamos, já que após a separação continuei morando com ela. Tínhamos afeto uma pela outra e declarações de amor. A relação era essa. Mas minha mãe permanecia fechada em seus pensamentos, sem compartilhar quase nada sobre si comigo. Consequentemente, nem eu com ela.
Me tornei adolescente, depois adulta. A vida foi acontecendo. E agora inicio meus primeiros passos na clínica como psicóloga. E esta introdução toda é para, de certa forma, refletir sobre o que ouvi de alguns professores durante a graduação: cada um tem os primeiros pacientes que merece.
Durante todos esses anos acadêmicos, eu tive uma certeza (sabia de nada) na vida: eu me esquivaria de qualquer paciente psicótico, dado todo meu histórico familiar e que, certamente, não conseguiria lidar com histórias parecidas com a da minha mãe. Ledo engano.
Pausa para curiosidade inútil: sempre sonhei em escrever “ledo engano”. Falar então… Uma delícia! Risos.
Voltando.
Dentre os pacientes que atendi esse ano, tive um específico que vou, aqui, chamar de Fulano.
Fulano se apresentou nas primeiras sessões com discurso desconexo, uma certa ansiedade em expressar tudo que podia e relatando que, em sua trajetória, houve algumas crises psicóticas. Quando estava em crise, gostava de andar sem rumo, se isolava socialmente, manifestava uma explosão de fúria com pessoas próximas, principalmente em relações afetivas carregadas de insegurança.
Pausa para eu falar comigo mesma: – Te lembra alguma coisa, Bruna?
Voltando.
Em meio aos seus relatos, ele sempre trazia metáforas existenciais, discursos filosóficos e forte ligação com arte em geral; desenhos, literatura, capoeira, música. E foi aqui que fui tentando tecer vínculo com ele e onde pude enxergar, através dos olhos dele, um pouco de como ele pensava o mundo.
Foi uma via de mão dupla. Através de um paciente psicótico, que jurava que fosse evitar na vida profissional, consegui abraçar um desafio que me instigou muito mais. Muito do que vinha dali me era familiar. Nada daquilo me assustava enquanto estagiane novata e perdida. Bem no sentido contrário, cada detalhe do seu relato o humanizava cada vez mais dentro da atmosfera patologizante que tem sido o trato da saúde mental hoje em dia. O vínculo terapêutico foi criando forma também através do seu engajamento e, assim, sendo possível encaixar algumas peças, destacando suas potencialidades, fortalecendo autonomia e autenticidade, juntamente com o acompanhamento psiquiátrico necessário.
Por fim, com muita terapia pessoal, fui também encaixando peças para mim. Será que esse percurso teria sido bem mais árduo se eu não tivesse vivido aqueles momentos com a minha mãe? Sem querer romantizar sofrimento aqui, porque só eu sei o que vi e senti quando nem idade pra isso eu tinha. Aliás, hoje não resumo essa história com minha mãe como boa ou ruim. Nos amamos e é isso. Entendo que foi a forma como a vida se apresentou. E sobre o Fulano, não entro muito nessa de experiência que mereci. Mas talvez tenha tido a experiência que eu precisava para compreensão de uma psicologia que vai além do que meus olhos de aprendiz enxerga.
Obrigada, Fulano que nunca vai ler isso aqui. Te desejo boas férias e boas reflexões. Ano que vem tem mais.
E assim nasce aos poucos uma psicóloga espetacular, que ao se surpreender com o que julgava impossível lidar, avançou, ajudou, aprendeu e se permitiu. Só voe Bru! 🙂
É triste saber que sofremos, claro. Mas lendo agora penso em quantas existências você vai melhorar, graças a sua experiência.
Sigo admirando
Oi Bruna, muito interessante esse seu relato! Eu recebi um diagnóstico tardio de autismo e estou descobrindo que meu pai é autista também. Esse mergulho na infância e adolescência que vc fez me deu vontade de fazer também. Gratidão!